Dossiê Temático - Comunicação e Esportes: Narrativas Midiáticas, Regimes de Representação e Novas Tecnologias

2026-03-24

Chamada para trabalhos - Dossiê Temático

Comunicação e Esportes: Narrativas Midiáticas, Regimes de  Representação e Novas Tecnologias

 

Editoras convidadas:

Profa. Dra. Soraya Maria Bernardino Barreto Januário (UFPE), Profa. Dra. Leda Costa (UERJ) e Profa. Dra. Kim Toffoletti (Deakin University)

 Submissões: até 07 de setembro de 2026

Avaliação e divulgação de textos aprovados: 09 de novembro de 2026

Publicação: abril de 2027

O dossiê “Comunicação e Esportes: Narrativas Midiáticas, Regimes de Representação e Novas Tecnologias”, busca explorar o esporte como fenômeno comunicacional estruturante da cultura contemporânea, enfatizando as dimensões comunicacionais, midiáticas e discursivas dos fenômenos esportivos. Propondo refletir sobre as relações entre esporte e comunicação, compreendendo o esporte como fenômeno social, cultural e midiático, atravessado por narrativas, disputas simbólicas e dinâmicas identitárias em escalas local, nacional e global (Fortes, 2011). O objetivo é analisar como o esporte, mediado por mídias tradicionais e digitais, se articula aos processos comunicacionais contemporâneos.

Essa abordagem alinha-se aos Estudos Culturais ao promover uma reavaliação do conceito de comunicação, conceituando-a como um processo sociocultural essencial (Escosteguy, 2006), no qual todas as pessoas participantes exercem um papel ativo na construção coletiva de significados, no qual o esporte emerge não como mero entretenimento, mas como um campo simbólico (Bourdieu, 1984) – que reproduz e contesta hierarquias sociais por meio de narrativas hegemônicas e contra-hegemônicas.

O debate esportivo no Brasil hoje é fortemente atravessado por discussões sobre representações, (in)visibilidades e dissidências relacionadas a gênero, raça, classe, identidade e territorialidade (Goellner, 2021). O dossiê busca reunir pesquisas que exploram as múltiplas conexões entre os esportes e o campo da comunicação, com ênfase em como narrativas, mídias e práticas culturais mobilizam sentidos sociais, disputas simbólicas e estruturas de poder (Barreto Januário, 2023). Em comum, os textos aqui apresentados revelam como o esporte opera como arena privilegiada de afirmação e negação de direitos, de visibilidades e de apagamentos, de hegemonias e de resistências. Ao investigar práticas narrativas, tensionamentos institucionais, omissões estruturais e potências emergentes, as propostas de  artigos iluminam o esporte como espaço de disputa política e de produção cultural (Helal, 2021; Toffoletti et. al, 2021).

Neste sentido, o dossiê visa analisar como o esporte opera como locus privilegiado de agenciamentos políticos, econômicos, sociais, estéticos, tecnológicos e identitários. Refletindo também sobre os “agenciamentos” – termo chave na teoria ator-rede  proposta por Bruno Latour (2005) –, compreendemos o esporte não como um fenômeno isolado, mas como uma rede híbrida e dinâmica formada por atores humanos (como atletas, torcedores e jornalistas) e não humanos, tecnologias como o VAR ou plataformas de streaming, e discursos midiáticos que circulam significados culturais. Nessa perspectiva, os agenciamentos representam as associações instáveis e mutáveis que estabilizam ou desestabilizam essas redes, revelando o esporte como um espaço no qual humanos, objetos e narrativas se entrelaçam para produzir realidades sociais coletivas. Essa configuração híbrida articula relações de poder, desde a dominação corporativa em patrocínios globais que moldam narrativas hegemônicas  e, simultaneamente, abre brechas para resistências, como ativismos de torcidas antifascistas e identitárias, que contestam exclusões. Tal dinâmica é particularmente evidente em estudos sobre megaeventos esportivos, como os de Horne e Whannel (2012), que analisam os Jogos Olímpicos como redes globais no qual tecnologias de vigilância (câmeras e dados biométricos) reforçam desigualdades econômicas e geopolíticas, mas também catalisam movimentos de base, como protestos por direitos indígenas durante a Rio 2016.

O tema é particularmente oportuno, diante de dois anos consecutivos de Copa do Mundo Masculina em 2026 (co-sediada por Estados Unidos, Canadá e México) e a FIFA World Cup Feminina em 2027 (sediada no Brasil), eventos que irão catalisar uma explosão de narrativas midiáticas globais. Esses megaeventos não apenas intensificam a produção, circulação e consumo de significados midiáticos, mas também revelam disputas de representação e poder, incluindo interseccionalidades de gênero, raça/etnia, classe e geografia. Como argumenta Jacques Rancière (2004), os “regimes de representação” no esporte configuram uma partilha do sensível que visibiliza ou oculta corpos marginais, uma dinâmica que é exacerbada nas Copas.  E que orienta grande parte da produção cultural nas sociedades ocidentais – exercem, sobretudo quando disseminados por canais de amplo alcance, uma influência decisiva na perpetuação das configurações sociais estabelecidas.

 Segundo FIFA (2022) houve um crescimento de 300% no engajamento midiático durante a Copa de 2022, com plataformas como TikTok e Instagram amplificando narrativas afetivas que, segundo Hardt e Negri (2004), fomentam "multidões" globais enquanto perpetuam exclusões. No contexto brasileiro, a Copa de Mulheres de 2027 oferece um contraponto disruptivo à edição masculina, permitindo pensar sobre o gênero da bola (Pisani, xxx) e o processo de visibilização da modalidade nos futebol de mulheres (Barreto Januário, 2023), por exemplo. E expõe como coberturas midiáticas sub-representam atletas mulheres negras e periféricas (ONU Mulheres, 2023).

O dossiê acolhe artigos originais que investigam as interfaces entre comunicação, mídia e esportes, os temas incluem, mas não se limitam a:

  1. Narrativas Midiáticas e Regimes de Visibilidade: Como plataformas como TV aberta, streaming e redes sociais digitais moldam narrativas esportivas? Análises de algoritmos de recomendação e sua influência na agenda-setting durante as megaeventos como a Copa e Olimpíadas, com foco em como a cobertura reforça ou subverte estereótipos de gênero e suas interseccionalidades.
  2. Disputas Interseccionais e Representações: Exploração de exclusões e resistências em representações de raça/etnia, classe e gênero, inspiradas pela teoria crítica feminista;
  3. Transformações Tecnológicas e Afetividades: Impacto de tecnologias emergentes, como IA para análise de desempenho (ex.: VAR aprimorado por machine learning) e realidade aumentada em transmissões;
  4. Dinâmicas Mercadológicas e Ativismos: Análise de como o branding corporativo interage com ativismos.
  5. Trajetórias Históricas e Auto-Representação: Estudos longitudinais da cobertura esportiva no Brasil, desde a Copa de 1950 até as edições futuras, incluindo auto-representações de atletas via podcasts e YouTube. Ideia inovadora: mapear “contra-narrativas” de torcidas organizadas em periferias urbanas, usando etnografia digital para evidenciar resistências locais.
  6. Narrativas históricas de modalidades e atletas invisibilizadas.